.sobre as pequenas descobertas.

Como sempre muito espirituosa, Viviane expunha suas opiniões com destreza e coragem. Nunca se deixou intimidar, nem mesmo quando o abuso vinha de autoridades do bairro periférico em que morava. E acontecia com frequência. Se não eram os olhares sedentos de homens que a tratavam como um pedaço de carne macia, era a sociedade que fazia questão de pregar seus sonhos embaixo do bueiro. Mesmo assim foi em frente, lutou por uma vida melhor, por oportunidades melhores. Fez uma faculdade, não gostou, mas terminou. Escolheu uma nova vida, com novas oportunidades. Não tinha medo.

Do outro lado da história estava Amanda, bem nascida, bem formada, cheia de sonhos e pouca paciência para trabalhar em um escritório e ver nos muros seus desejos serem impedidos. Nunca foi parada pela polícia, nunca precisou dar satisfação, apenas vivia. Fez uma faculdade particular, passou metade do curso descobrindo novas bocas, novos braços, novos sabores e novas drogas. Viveu em 4 anos o que muita gente não vive em uma vida. Tinha um gosto particular por batidões e bares pé na rua, mas nunca usava um chinelo, nem mesmo na praia. Nasceu bem, viveu bem, morrerá bem.

Igual as duas apenas o gênero e a empresa, e o cigarro que às vezes escolhia o mesmo horário para as duas. Nesses 5 minutos descobriram gostos parecidos, formas de ver a vida parecidas, o feminismo e a falta de confiança no país que está “abarrotado de políticos corruptos”, disseram juntas em uma dessas escapadas. Riram. Continuaram a conversa.

Muitos encontros depois decidiram falar de política e de sociedade em mais um desses 5 minutos. Falaram sobre as experiências corruptas que passaram:

-No bairro que eu moro vire e mexe eu sou parada pela polícia. Da última vez eu estava voltando da minha mãe e eu tinha acabado de fazer o cabelo. O policial me parou por motivo nenhum, pediu meu documento, estava vencido, mas ele nem viu. Ficou me perguntando onde eu estava, para onde estava indo, porque tinha feito o cabelo. Perguntou se eu tinha marido…eu disse que não…perguntou se eu tinha namorado…eu disse que sim…e ficou lá me cantando, me passando xaveco, e eu só queria sair dali. O outro policial me devolveu o documento e não me perguntou mais nada. Segui viagem! Ele não queria saber do meu documento vencido, apenas queria me parar e me olhar.

-Caralho, que foda! Esses caras são nojentos, só porque você é mulher e bonita. Em uma das minhas viagens eu fui parada pelo policial e ele queria 300 dólares para me liberar. O carro era alugado, eu tava com meus amigos, negociei e paguei. Um absurdo! Um absurdo esse abuso policial, um absurdo esse país que a gente vive.

-Muito….E eu realmente fiquei preocupada com meu documento vencido, encontrei um cara que disse que vai limpar tudo. Paguei 1200 reais pra ele, deve ficar pronto essa semana.

– Sério? Porra, meu marido também precisa limpar. Mas esse cara é bom?

-Opa! Até indiquei pro diretor da empresa, o Rodrigo, sabe? Tá fazendo com ele e tudo.

-Taí! Me passa o contato então. Ir no Detran é foda mano, fora que demora uma vida e você tem que fazer o curso de novo. Não dá!

-Não mesmo… ainda mais no país que a gente vive.

-É mesmo…ainda mais nesse país corrupto!

Apagaram o cigarro, passaram a catraca do prédio comercial e pegaram o elevador. Cada uma para um lado…até o próximo cigarro.

 

 

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