.um conto sobre a dor do outro.

Naquela madrugada gelada do finalzinho da primavera uma luz na janela da casa número 25 se destacava na imensidão das estrelas que brilhavam no céu. O quarto estava úmido e alaranjado, culpa da luz fraca que saía da lâmpada que Léo muitas vezes pediu para que Jack trocasse. Jack dizia pra que Léo não se preocupasse com as lâmpadas, já havia comprado novas e só faltava trocar, coisa rápida. Mas não trocou.

Jack nunca fazia aquilo que propusera, a não ser quando faltassem alguns poucos minutos para Léo estourar de nervoso. Foi assim que se conheceram. Léo estourando, Jack olhando ao redor e tentando descobrir da onde vinha aquele barulho estridente sem motivo algum. Era Léo. Léo gosta de drama, Léo é sensível, Léo não se conforma em viver a vida com marasmo. Léo grita, chora, urra, ama e grita de novo.

Jack enxergou Léo quando tudo o que as pessoas viam era uma pessoa problemática. Jack encontrou em Léo tudo aquilo que lhe faltava. Jack sentiu que poderia voltar a pensar.

Foi numa noite de Junho que Jack perdeu sua habilidade de ter ideias. Foi quando perdeu a vontade de levantar da cama. Quando perdeu a cor. Foi de repente, foi assustador. Foi o fim de Jack. Não queria mais viver, tampouco era capaz de acabar com a vida. Era um ser humano apático.

Léo tinha cor. Até demais. Léo brilhava.

Primeiro foi um café, depois uma conversa, um encontro ao acaso (de Jack, não de Léo), mais um café, um sorriso. Um sorriso tão leve que fez Jack se assustar com aquele movimento de músculos tão estranho em seu rosto. Um movimento que aquecia outras partes do seu corpo morto. Que fazia sentir um estremecimento interno que não era de dor, ou de frio, ou de medo.

Não era fácil curtir. Era estranho. Era como se não devesse existir, não fazia sentido. Mas estava lá, todo cheio de vontade em um ambiente inóspito.

Léo sabia que Jack tinha uma ferida aberta demais para ser ignorada. Mas não ligava. Nem queria detalhes. Léo só queria aproveitar o tempo que tinha com Jack. Não entendia exatamente como, mas sentia que ali tinha uma história boa demais pra deixar passar. Aliás, Léo sempre achava que tudo podia virar um capítulo em sua autobiografia mental.

Para Léo, Jack era seu grand finale. Assim mesmo, sem prefácio, nem nota de rodapé. Sabia que cedo ou tarde teria que fechar o pesado livro e esquecê-lo para sempre. Ou até a próxima pessoa desinteressada o encontrar e passar pra frente.

Léo tirou os óculos de lentes muito escuras que já fazia parte de Jack, e os quebrou em sua frente, sem aviso. Jack se viu na surpresa de um universo de tanta novidade.

Em um novo mês de Junho Jack respirou o mais fundo que pôde e pediu para que Léo compartilhasse sua vida inteira de luz. Léo demorou alguns segundos para responder (que para Jack duraram horas desesperadoras), com um sorriso mais largo que suas bochechas, um fanho “não”.

“Não?” –  Jack piscou sem cerimônia seus pequenos olhos castanhos.

“Não! Eu não posso ser sua luz.”

Jack fechou os olhos e em silêncio engoliu cada uma daquelas palavras. Léo se levantou, fitou uma covinha na testa de Jack que sempre achara charmosa, desviou o olhar para encarar sua face, sorriu sem os olhos e se virou.

Léo não podia carregar dois pesos em suas costas. Sempre soube disso.

Jack não podia caminhar só. Não mais.

Léo não era pra Jack.

Jack não era pra ninguém. Jack era uma máquina com defeito.

Quando chegou em casa, sem pensar em nada a não ser no simples ato de respirar, Jack trocou as lâmpadas que estavam fracas. Seu quarto se iluminou a ponto de doer seus olhos despreparados. Mas não era aquela luz. Não era Léo.

Jack encontrou a coragem que lhe faltara um ano antes…

…e apagou a luz!

.imagem livremente baixada do Google Imagens.

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