.sobre querer um cachorro. #1

Quando eu era criança morria de medo de cachorro. Eu gelava quando via um na rua, mudava a direção, ficava dura. Não conseguia entender como as pessoas não tinham medo dessas criaturas grandes, peludas, raivosas.

Tentei por diversas vezes gostar deles. Já vesti três calcas jeans para que minhas pernas não sangrassem caso eles pulassem em mim (sim, eu tinha a impressão que quando um cachorro pulava em você automaticamente você sangrava como se estivesse ferida com faca, por causa das unhas). E por mais que eu ouvia que eram mansos e bonitinhos, só tinha pavor.

Só fui perder o medo de cachorro quando meu pai pegou um vira-lata. Eu devia ter uns 12 anos, e com a convivência semanal eu aprendi a viver no mesmo ambiente. De lá foram os carinhos com alguém segurando, depois os passeios na coleira, até me apaixonar e perder o medo. De lá pra cá, eu virei a louca dos bichos. (Entende-se gatos, cachorros e no máximo coelhos).

Desde então, quis um cachorro pra mim mas, minha mãe nunca deixou. E eu meio que perdi as forças e desisti. Convenci-a a ter um gato, que foi uma experiência única e maravilhosa, mas queria um cachorro.

Só fui de fato começar a pensar seriamente nisso quando eu sai de casa. Afinal, “enquanto você viver sobre o meu teto, vai respeitar as minhas regras” já não existia mais. Meu namorado também queria, e começamos a sonhar com isso.

Claro que, como uma pessoa ansiosa, precisava conversar com o máximo de pessoas que eu encontrava sobre o assunto, e quanto mais eu ouvia, mais eu entrava em pânico e ansiedade.

Aprendi que existem algumas categorias de pessoas, e os impactos desses encontros só pioravam a minha situação e dúvida. São elas:

  1. “Mal casaram e já vão arranjar problema”.

Essas são geralmente aqueles que acham que quando juntamos temos um período pré estabelecido para “curtir” a vida. E isso inclui não ter filhos, não ter cachorros, não ter muitos programas. Aproveitar a cia um do outro ao máximo. Percebo que em sua maioria são aqueles que tiveram filhos muito cedo, ou problemas muito cedo, e acham que um cachorro é a pior coisa que você poderia ter.

O que um ansioso faz quando ouve essa frase? Você começa a refletir sobre isso e acaba se perguntando se de fato é um problema, e se você não devia mesmo curtir o máximo que você tem, afinal a afirmação veio forte. E aí entra o pânico de não conseguir curtir, e todos os momentos gostosos passam a ser momentos de “será que estou curtindo?” e você esquece que sua preocupação era sobre pegar um cachorro.

2. “Mal sabe cuidar de você e agora quer ter um cachorro. Vai sobrar pra mim e EU NÃO VOU CUIDAR”

Quem diz isso geralmente é um pai/mãe/vó/tio ou qualquer pessoa que um dia teve responsabilidade sobre você. Muitas vezes não percebem que você cresceu e virou um adulto capaz de tomar as próprias decisões. São aqueles que de tanto te verem como criança ficam torcendo pra fazer cagada pra depois jogar um “eu te avisei” silencioso com um sorrisinho de triunfo. Não adianta julga-los, todos nós já passamos/passaremos por isso.

O que um ansioso faz quando ouve essa frase? Você para e pensa o quão incompetente você é na vida, e o quanto realmente não sabe cuidar de si e começa a ficar ansioso porque você vai provavelmente comprar ou adotar um cachorro e ele vai sofrer porque você é uma bostinha de adulto. Sim, isso acontece quando somos ansiosos.

3. “Mas vocês nem ficam em casa, pra deixar sozinho não vale”

Esses são os que imaginam que um cachorro precisa de sua cia 100% do tempo, e que acreditam que sua vontade não passa de um capricho bobo, ou de uma forma de mostrar pros outros o quanto você é legal porque tem um cachorro. Ficam azucrinando nessa tecla, como se você fosse fazer uma crueldade sem tamanho com um bichinho.

O que um ansioso faz quando ouve essa frase? Pensa “ih caramba, é verdade. Eu trabalho fora, ele vai ficar sozinho, vai sofrer, vai chorar, vai se mutilar (porque você vai começar a procurar na internet quais são os sintomas da ansiedade canina causada pela síndrome da separação), ele vai comer as paredes até ter um ataque cardíaco e vai morrer. Eu vou pegar um cachorro pra que ele morra. Meu Deus, como sou egoísta”.

4. “Você mora em um apartamento. Ele não vai ter espaço, vai sofrer”

Essas pessoas não estão necessariamente erradas. Claro que a vida de um cachorro livre, daqueles que vivem em sítios e casa com quintal, é diferente dos cães de apartamento. Mas não é necessariamente verdade também, são vidas diferentes, apenas. Mas, esse argumento é muito usado, de verdade.

O que um ansioso faz quando ouve essa frase? Você começa a imaginar vivendo em uma casa gostosa, com quintal, em um condomínio no interior, onde seus muitos cachorros podem correr pra lá e pra cá com seus ossinhos na boca. Onde eles pulam em piscinas e nadam de alegria, e rolam na grama de um jeito jocoso que faz você dar muita risada. Ai você olha ao redor do seu apartamento e se sente a pior pessoa do mundo porque eles não vão ter espaço, não tem grama, não tem quintal, a varanda é minúscula, ele vai sofrer, ele vai morrer de tristeza, que merda de pessoa eu sou.

5.”Pega. Eu sempre tive cachorro, eles são ótimos companheiros, você vai amar”

Esses são os únicos que você quer realmente ouvir, mas, como a opinião é completamente diferente de tudo que se ouviu até então, você desacredita que seja verdade. Mas, são essas as pessoas que tem cachorros que sabem o que eles podem fazer por você e você por eles, e realmente querem que você faça aquilo que te faz feliz.

O que um ansioso faz quando ouve essa frase? Pensa “Não pode ser verdade assim. Todo mundo me enche o saco dizendo que eu vou fazer mais mal do que bem pro bicho, que ele vai morrer de tristeza e solidão. Não pode ser… Mas será? Ah não, acho que é bobagem. Melhor desistir dessa ideia maluca”.

6.”Sua casa tão novinha, vai estragar tudo. Eles mijam em todo lugar, soltam pelos, estragam suas coisas”

Geralmente são aqueles que tiveram experiências muito ruins, ou que só sabem o que vem e ouvem outros falando. Tem horror a bagunça e sujeira, e acham que todos tem que ser assim, ou pelo menos entende que assim deveria ser.

O que um ansioso faz quando ouve essa frase? Já imagina todos aqueles móveis lindos e novos destruídos e mijados. Se vê como a Cinderella que fica maior parte do tempo limpando o chão do castelo com uma escovinha. Pensa em todas as oportunidades que irá perder porque tem que catar coco, e começa a olhar o cachorro como se ele fosse um bicho sujo e nojento.

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Mesmo assim você decide pegar o cachorro. Seja de raça, seja de rua, você tapa os ouvidos e acha um serumaninho. Aí você leva pra casa. E aí, meu querido ansioso, você praticamente morre.

É muito difícil aceitar que você está fazendo um bem. Sério! Nos primeiros dias eu ria de felicidade e chorava de angústia, porque por vários momentos eu achava que tinha feito mal ao Krav, meu primeiro cachorro. Peguei em uma feira de adoção, de um abrigo que já não tinha estrutura, mas mesmo assim eu só conseguia visualizá-lo correndo pra lá e pra cá com seus amigos, e rolando e rindo. Sim, eu imaginava o Krav dando risada igual os cachorros de desenhos animados. E esse sentimento demora pra ir embora. Você imagina que ele até não podia ter comida, mas tinha amigos. Até podia dormir no relento, mas tinha espaço. Até podia ficar doente, mas tinha espaço. ESPAÇO…ESPAÇO…ESPAÇO.

Quem é ansioso sabe que o pessimismo é sempre mais presente. Nós tendemos em pensar que não fazemos as coisas certas, ou do jeito que deveriam ser. E passamos essa ansiedade pro bicho.

Hoje, depois de quase 1 ano com o Krav, eu consigo olhar pra ele e perceber que fiz um bem. Ele é feliz. Ele não me desgruda, ele faz a maior festa da vida quando eu chego em casa, ele deita do meu lado e relaxa feliz. Ele sabe quando eu estou jururu e simplesmente fica quieto do meu lado. Ele chama minha atenção pra brincar e me acorda todos os dias muito cedo. Ele não chora, não tem pelo opaco, não fica doente. Ele me ama, nos ama (eu e o Daniel) e nós o amamos tanto que eu sinto no coração que eu fiz a melhor coisa que poderia ter feito.

A decisão é nossa, a responsabilidade é nossa, os medos são nossos. Se aprende muito com outras pessoas, mas também se aprende demais errando. O medo às vezes nos obriga a tomar decisões assustadoras, mas ele passa. Demora….mas passa.

Desculpa quem não gosta da comparação, mas ter um bicho deve ser como ter um filho. Você precisa alimenta-lo, limpa-lo, entretê-lo. Precisa prestar atenção aos sinais fora do comum, precisa dar muita atenção. Precisa aprender a limpar xixi, coco, vômito, dar bronca. Muitas vezes. Precisa aprender a conviver com cheiro de cachorro, por mais asseados que sejam. Precisa aprender a conviver com latidos fora de hora, ininterruptos, agudos. Precisa paparicar os vizinhos, levar pra passear. Não é fácil. E ninguém toma a decisão de ter um cachorro sem saber dessas coisas. Por mais inexperientes, são coisas óbvias.

Vou fazer uma séria de textos sobre cachorros. É um assunto que pra um ansioso rende muito!

Se você está em dúvidas se pega ou não, e se tiver independência sobre sua vida, vá. Não ouça as pessoas de cima, não se deixe levar pelas ideias e experiências negativas que outras pessoas tiveram. Entenda a realidade delas, e vá viver a sua.

Quais as frases clássicas que você já ouviu sobre pegar um cachorro? Comenta aí! 🙂

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